"Aterroriza-me o que sou para vós; consola-me o que sou convosco. Pois para vós sou bispo; convosco sou cristão"

PALAVRA DO BISPO

A EUCARISTIA FAZ A IGREJA...

Nessa semana em que a Igreja se prepara para celebrar Corpus Christi, gostaríamos  de apontar  três mistérios principais que vamos festejar: a instituição da Eucaristia, quando Jesus, antecipando a sua morte na cruz, se entregou como alimento, como expressão máxima do amor. Em segundo lugar, recordamos com gratidão a instituição da Ordem sacerdotal, quando os apóstolos de Jesus, escolhidos pela graça e não pelos méritos, foram cheios do Espírito Santo para poderem oferecer aos homens os frutos da Páscoa do Senhor. Por fim, queremos fazer nosso o preceito do amor fraternal, tendo Jesus ordenado aos seus discípulos que se caracterizassem no mundo como pessoas dispostas a tornar-se semelhantes a Ele, que derramou o amor de Deus na vida de todos os homens.
 
Nunca deixaremos de nos maravilhar e ao mesmo tempo agradecer ao Senhor Jesus pelo grande e sublime dom que Ele nos deixou na Eucaristia. Com efeito, Jesus não se limitou a doar-se, o seu corpo e o seu sangue apenas aos Doze Apóstolos, presentes naquela Quinta-feira Santa, no momento da instituição da Eucaristia. Provavelmente nem sequer compreenderam e desfrutaram plenamente toda a profundidade e grandeza deste gesto sublime, que testemunharam.
 
A Eucaristia é um dom que Jesus estende e prolonga a todos os seus discípulos, até ao fim do mundo, para que cada um de nós possa alimentar-se do seu Corpo e beber o seu Sangue para participar e viver plenamente na sua vida, para se sentir ligado à sua amor.
 
A Eucaristia permite-nos entrar em contato direto com Jesus e, através da invocação do Espírito Santo vivificante, desfrutar dos frutos da sua redenção, regenerar continuamente a comunhão de amor entre Ele e nós, fazendo nos sentir parte viva do seu Corpo, uma comunidade fundada no amor.
 
Grande é o ministério dos sacerdotes, que, invocando o Espírito Santo sobre os dons do pão e da vida, auxiliam na fé numa obra que os supera, indispensável para a vida do mundo e dela tiram forças para se tornarem operadores na vida cristã, comunidade de comunhão e tecelões de unidade. O ministério pastoral é um serviço humilde.
 
Sem a Eucaristia, Alimento dos viajantes, tudo seria desolado, porque é a Eucaristia que gera vida nova, uma antecipação do mundo futuro. Sem a Eucaristia, a aridez espiritual sufocaria a terra, transformada num deserto, porque onde não há amor, humildade e solidariedade, não há vida, portanto não há futuro. Sem a Eucaristia, o amor não produziria os seus frutos, os homens se recolheriam no seu egoísmo fechado e frio, preocupados apenas consigo próprios.
 
Com a Eucaristia, porém, a Comunidade é criada e continuamente regenerada (é a Eucaristia que faz a Igreja!). Não podemos viver uns sem os outros e somos todos responsáveis ​​uns pelos outros: é a Eucaristia que nos une e nos transforma num só corpo. Com a Eucaristia a terra deserta torna-se um jardim irrigado, com flores e frutos em todas as estações (é com a força da Eucaristia que se promove um projeto de vida baseado no dom de si a partir dos vários carismas de cada um. Desta forma, concretiza-se a cultura da doação, ou seja, o projeto de nos tornarmos um instrumento, uma oportunidade de servir os outros.
Sem a força eucarística é impossível ao homem cumprir o mandato do amor fraterno, isto é, amar com a mesma intensidade com que Deus nos ama. 
 
“Assim como eu os amei, vocês também devem amar uns aos outros.” Este é o único mandamento de Jesus. É um pedido que exige uma abertura generosa e gratuita, uma disponibilidade total, estendida a todos, como o gesto de Jesus, que lavou os pés de Judas, apesar de saber que o trairia, que ensinou Pedro, maravilhado com o gesto inusitado e, em sua opinião, inadequado do Mestre, ensinando a primazia da doação quando também lavava os pés.
 
Alegremo-nos, portanto, no Senhor. Ele não deixa de nos sustentar com a força do seu alimento. Aprendamos a ir além da medida do nosso amor. Ainda não atingimos a medida de amor com que Jesus nos nutre na sua Eucaristia. Pelo menos tentamos imitá-lo.
 
(Dom Nelson F. Ferreira)